Frio expõe falha na prevenção: mortes por SRAG dobram no Grande ABC e pressão recai sobre prefeituras

Frio expõe falha na prevenção: mortes por SRAG dobram no Grande ABC e pressão recai sobre prefeituras

As mortes por SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) dobraram no Grande ABC entre abril e setembro de 2025, período de outono e inverno, em comparação com os meses mais quentes do ano. Os óbitos saltaram de 47 para 94, enquanto os casos confirmados subiram de 1.325 para 2.303. O avanço da doença, impulsionado pela circulação de vírus respiratórios em uma época marcada por ar seco, frio e maior permanência em ambientes fechados, acende um alerta regional e escancara o desafio das prefeituras para conter uma nova pressão sobre o sistema público de saúde.

Os números, compilados com base no Núcleo de Informações Estratégicas em Saúde (NIES), do governo de São Paulo, mostram que o problema não é isolado. Em todo o Estado, foram 3.941 mortes por SRAG entre abril e setembro, contra 2.342 no primeiro e no quarto trimestres. No mesmo recorte, os casos passaram de 24.901 para 42.595.

O pico regional foi registrado entre 12 e 25 de maio, quando o Grande ABC concentrou 301 casos e 26 mortes em apenas duas semanas. O pneumologista, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina do ABC, Elie Fiss, avalia que o período de maior risco ainda está por vir. Segundo ele, a combinação de ambientes fechados, baixa umidade do ar e aumento da poluição compromete o sistema respiratório e favorece a disseminação dos vírus.

As crianças de zero a nove anos lideram as notificações, com 904 casos, o equivalente a 39,2% do total registrado no outono e inverno. Em seguida aparecem os adultos de 20 a 59 anos, com 678 registros, e os idosos, com 561. Adolescentes de 10 a 19 anos foram a faixa menos impactada, com 160 ocorrências. Entre homens e mulheres, a distribuição foi relativamente equilibrada.

O principal agente associado aos quadros graves é a influenza. Dados da Secretaria de Saúde do Estado indicam que a gripe respondeu por cerca de 30% dos casos de SRAG na região, enquanto a Covid-19 representou 15%. Mas o dado mais preocupante talvez esteja justamente no que não foi esclarecido: metade das ocorrências ficou sem causa especificada, seja por falta de investigação ou por associação com outras etiologias. Esse vazio de informação compromete o diagnóstico mais preciso da crise e dificulta respostas públicas mais eficientes.

A prevenção, segundo Fiss, passa sobretudo pela vacinação, cuja eficácia varia de 70% a 95%, além de medidas básicas como hidratação, lavagem frequente das mãos e redução da exposição a locais poluídos. Ainda assim, o avanço dos casos mostra que a cobertura preventiva segue insuficiente ou mal distribuída justamente entre os públicos mais vulneráveis.

Diante desse cenário, as prefeituras do Grande ABC afirmam ter intensificado campanhas de imunização. São Bernardo diz manter vacinação em 35 UBSs e ações de conscientização com agentes comunitários. São Caetano informa que iniciou a campanha em 28 de março, com aplicação nas 14 UBSs e no Centro Municipal de Imunização. Diadema relata reforço no monitoramento de pacientes crônicos, reorganização da rede e ações educativas. Mauá afirma ter ampliado a busca ativa por grupos prioritários, com foco em gestantes.

Mas a disparada dos casos e mortes indica que a resposta oficial, embora existente no discurso, não tem sido suficiente para conter o agravamento sazonal. A repetição desse padrão no período frio sugere que as administrações municipais e seus prefeitos continuam reagindo a uma crise previsível em vez de se antecipar a ela com estratégias mais robustas de vacinação, rastreamento e comunicação pública. Quando metade dos casos sequer tem causa especificada, o problema deixa de ser apenas epidemiológico e passa também a ser de gestão.

Com a aproximação dos meses mais críticos, o Grande ABC entra novamente em estado de atenção. E, se os números de 2025 servem de aviso, a cobrança sobre os governos municipais tende a crescer na mesma proporção que a ocupação dos postos de saúde.

Redação ABC 360

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