Sites Brasileiros espalham desinformação sobre carne de burro na Argentina
Uma onda de desinformação atingiu as redes sociais brasileiras ao sugerir que a Argentina, em meio à sua crise econômica, estaria incentivando o consumo interno de carne de burro. O que as publicações omitem, no entanto, é que o projeto em questão é uma iniciativa acadêmica e comercial de nicho, sem qualquer relação com a dieta da população local.
O projeto teve origem na Universidade Nacional de Río Cuarto (UNRC), na província de Córdoba. Ao contrário do que foi propagado, o foco não é o prato do cidadão argentino, mas sim o mercado externo. A proposta visa o manejo de asnos selvagens — considerados um problema de segurança em rodovias e um desafio ambiental em certas regiões — para a exportação de carne e couro para a Ásia, especialmente para a China.
A China possui uma demanda massiva pelo couro desses animais para a produção de ejiao, uma gelatina usada na medicina tradicional. Países como o Brasil também já lidaram com debates semelhantes sobre o abate de jumentos para atender a essa demanda. Na Argentina, a carne bovina continua sendo o pilar cultural e econômico, e não há qualquer movimento do governo nacional para substituir o consumo de gado por equídeos ou asnos.
A narrativa que chegou ao Brasil foi moldada pela polarização. Ao retirar o contexto técnico e exportador, publicações transformaram um estudo de viabilidade econômica regional em uma suposta “prova” de colapso alimentar. Especialistas em verificação de fatos alertam que o caso é um exemplo clássico de desinformação por descontextualização: utiliza-se um fato real (o projeto em Córdoba) para sustentar uma conclusão falsa (que os argentinos estão comendo burro por falta de opção).
Resumo: A Argentina busca exportar o que não consome para gerar divisas, e não alterar o cardápio de sua população por desespero.